sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Dobrar a esperança

Aqui no bairro circula uma informação que tem foros de cidade: vai passar a haver dois sorteios do euromilhões por semana.Aqui está como se dobra a esperança da multidão...

António Borges Coutinho(1923-2011)

Foi o Mário Mesquita quem me telefonou a dar a notícia do falecimento de António Borges Coutinho.Recuei aos anos sessenta em S.Miguel quando uns poucos activistas se reuniam na sua casa apalaçada para discutir a situação política numa perspectiva anti-salazarista. Borges Coutinho era sempre o mais animado e animador.Conheci-o depois da sua prisão e da minha.Separados por mais do que uma geração,notei que se interessava verdadeiramente pelas novidades e o modo de pensar das mais novas.Foi um resistente emblemático e actuante contra a ditadura.Quando esta foi derrubada o seu nome foi naturalmente sugerido para governador-civil do então distrito de Ponta Delgada.Pouco dado a tacticismos, o seu passado tão claro incomodou muita gente de má consciência.Numa situação tão explosiva como a que se viveu em S.Miguel em 1974-1975 a sua acção não foi de molde a acalmar os espíritos, mas portou-se sempre como um bravo, mesmo no dia em que uma manifestação de rua o cercou na sede do governo e exigiu a sua demissão.
Regressou com serenidade à condição de cidadão.Deixou alguns testemunhos dispersos sobre a apreciação que fez dos acontecimentos em que esteve envolvido, e que tenho citado como fonte histórica em alguns dos meus trabalhos.
Os Açores, e os portugueses em geral, devem-lhe uma homenagem e um reconhecimento pela sua luta pela liberdade e pela sua recta intenção como participante da coisa pública. sem pensamentos reservados.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Longo Curso

Os meus antigos alunos-hoje distintos historiadores e professores- Maria Inácia Rezola e Pedro Aires de Oliveira tiveram a ideia de dedicar e organizar um livro com colaborações científicas de académicos que trabalham temas nas áreas de estudo que desenvolvi enquanto fui professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.A Vera Tavares desenhou uma capa forte. A editora Tinta da china emprestou o seu talento em produzir livros de qualidade estética ímpar.A minha colega de blogue, e também produtora do Córtex-Frontal, Joana Amaral Dias deu aqui à estampa o frontispício O João Gonçalves replicou imediatamente.Grato a todos os que participaram nesta amiga dedicatória.É, de facto, um longo concurso.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Homenagem ao meu colega de blog

A capa diz (quase) tudo

Greve geral no Egipto

Vejo as imagens da enorme concentração popular no Cairo em dia de greve geral.Sempre me perguntei porque nestas coisas nem sempre as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.São os mistérios da macro-política.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Paralizados

O resultado das presidenciais imobilizou a dispersa esquerda na defensiva , e deu o sinal à direita para se concentrar e preparar a ofensiva de verão.As sondagens da noite eleitoral são «une vue d'esprit» que dura um fim-de-semana, como o que passou.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Um País de presidenciáveis

Estas eleições intercalares para o cargo de PR resultaram na derrota dos candidatos apoiados partidáriamente, e mais uma vez recompensaram os candidatos que se apresentaram como independentes.Silva Pereira, sempre simpático, explicou o apoio a Alegre pela falta de comparência de outros candidatos da área.Talvez estivesse a pensar em José Sócrates, António Guterres, António Vitorino, Jaima Gama,sei lá quem mais.
Portugal é um País de presidenciáveis, como escrevo no Correio da Manhã.Mas os presidentes só se apresentam quando podem ganhar.No intervalo deixam o terreno em poisio aos independentes e aos voluntaristas.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Alguma coisa está mal

Cavaco Silva prescindiu do vencimento atribuído ao PR e escolheu manter as reformas a que temdireito.Há algo de errado nisto.Mas o quê?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A técnica da irresponsabilidade

O Cartão de Eleitor data das leis para a Assembleia Constituinte de Novembro de 1974, e da extraordinária e bem sucedida operação de recenseamento operada em Portugal naquela altura.O regime pode ter imensos defeitos mas tem um bem precioso no seu activo que é o da credibilidade do processo eleitoral.Tudo adquirido na génese do regime.
No último domingo houve erros que levaram a dificuldades de votação, e mesmo ao impedimento eleitoral de muitas pessoas, por causa do Cartão do Cidadão.Logo se exigiu a demissão do Ministro da Administração Interna.Ora começar pela demissão do ministro é a melhor forma de não se apurar qualquer responsabilidade material e deixar ao acaso a futuro correcção dos problemas que originaram o mau funcionamento técnico do acto eleitoral.A responsabilidade política tem coberto muita outra incompetência em Portugal.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Egoísmo fiscal gera egoísmo fiscal

A Alemanha de Merkel tem demonstrado o seu egoísmo nacional na questão da ajuda financeira aos países do arco periférico da UE.Mas essa atitude também se está a difundir para o interior da própria Alemanha.Os landers mais ricos como a Baviera, o Hesse e Baden-Wurttemberg estão a coligar-se para diminuir as respectivas contribuições orçamentais para o Fundo de Compensação Federal que presta assistência financeira a outras regiões da Alemanha unificada.Egoísmo internacional serve de inspiração ao egoísmo fiscal entre muros?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O voto identitário

O apelo ao voto identitário esteve presente nestas eleições sobretudo tendo por base afinidades de origem geográfica.Fernando Nobre insistiu na tónica de ter nascido no «Portugal Ultramarino», expressão com conotações bem conhecidas e que pode ter movido muitos portugueses a votar nele.José Manuel Coelho, insular, bem podia ter evidenciado a sua natureza cis-marina, mas carregou na naturalidade madeirense, o que lhe valeu uma grande votação naquela ilha. Defensor de Moura exibiu outro tipo de chamamento identitário: regionalista , apresentou-se como um autarca da setentrional Viana do Castelo, e pouco falou do seu mandato de deputado pela Nação.Quando as grandes divisões são escondidas esses albergues sentimentais podem funcionar bem.Todos têm orgulho na sua terra.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Abstenção técnica e táctica

A eleição directa do PR é uma das diferenças mais importantes do regime da Constituição de 1976 em relação à Primeira República, onde só um presidente eleito pelo Congresso chegou ao fim do seu mandato.O actual regime tem vindo a acumular defeitos mas há um que não tem:é o da instabilidade política.Ora a abstenção crescente nas eleições presidenciais pode induzir a tentação de questionar as «directas», quando não é isso que está em causa.O que está em causa é o uso minguado que o cargo tem oferecido-filho da estabilidade- e o facto de todos os titulares do cargo terem feito dois mandatos.Mas se um dia o regime entrar em sérias dificuldades-e já esteve mais longe-logo se verá como será decisivo o papel político e institucional do PR.Há quem nunca veja muito longe.

RAZÕES POUCO NOBRES

Em 2010, Nobre reunia muitas facetas promissoras para a sua candidatura. Até com mais vantagens do que Alegre em 2005. Ao contrário do cliché, o médico não foi o poeta das anteriores presidenciais, pois o Alegre de 2005 dificilmente poderia ser considerado um debutante da política. Era “o rebelde”, mas não o forasteiro. Ou seja, mais do que a “figura histórica do PS”, Nobre detinha a aura de independente que se revelara tão auspiciosa há 5 anos. Por outro lado, tinha obra e colhia uma expectativa positiva sobre o que de diferente poderia trazer para a política, vista por tantos como inquinada.

Nobre desbaratou este capital. Da imagem de empenhado médico humanista da sociedade civil, passou a um lugar confuso. Insistiu que nem era esquerda nem direita. Sobre questões essenciais, como Saúde ou Educação, nunca foi claro. Aproveitou mais o descontentamento dos portugueses do que lançou soluções. Posicionou-se como homem providencial. Mostrou um crasso desconhecimento sobre os poderes do Presidente garantindo, por exemplo, que se bateria pela redução do número de deputados. Tanto apresentou o residente de Belém como árbitro como enquanto decisor.

Nobre apresentou muito currículo e poucas ideias. Muito passado e pouco futuro. Daí que o seu resultado seja surpreendente. Como resistiu no meio de tanta gaffe e impreparação? Como, mesmo assim, captou votos da esquerda não alegrista e votos de descontentamento? A sua votação indicia como as presidenciais de 2016 terão largo espaço para outro independente. Mas não pelas melhores razões.

Publicado no Correio da Manhã.

O situacionismo continua

Hoje no Correio da Manhã A vitória do situacionismo.A reeleição de Cavaco Silva foi tão rotineira como o seu burocrático primeiro mandato.Muito mau o seu discurso de vitória .O pior de todos os seus discursos de vitória. Mau sinal.O problema reside nos tempos exigentes que vamos ter pela frente.
Também se pode ler com utilidade a Posição Frontal sobre as Presidenciais tomada pelos dois autores deste blogue.As esquerdas saem destas eleições de mãos a abanar e mais fracas.

Segunda semana de campanha

UMA REFLEXÃO

Nestas presidências, a abstenção será, mais uma vez, um dos candidatos silenciosos interpretado e escalpelizado por comentadores e analistas. Se alguns entendem que esse fenómeno se deve à dificuldade dos políticos em cativar os eleitores, outros defendem que é resultado do alheamento dos votantes. E se um argumento não tem que excluir o outro, vale a pena ter um critério que permita perceber melhor para que lado pende a balança.

As audiências dos debates e tempos de antena é um deles. Em 2005, só três debates presidenciais integraram o top 15 de audiências. Em 2010, sucedeu o mesmo. Já nestas presidenciais, os tempos de antena foram sempre o programa mais visto. Sem contar com as peças de campanha que todos os noticiários divulgaram diariamente. Estes números permitem considerar, pelo menos, que os eleitores não estão assim tão desinteressados. Podem abster-se, mas informam-se. Logo, será necessário que os protagonistas políticos repensem sobre as suas formas de intervenção. Sendo que, a fórmula mágica não mora nas redes sociais, como esta campanha também demonstrou. A mudança terá que ser outra. Mas esse assunto terá que ficar para outra altura. Paradoxalmente, este dia de alheamento por decreto dos eleitores não permite mais reflexão.


Publicado no Correio da Manhã.


APOCALIPSE PEQUENINO


Nesta recta final, assustado com a queda nas sondagens, Cavaco dramatizou o discurso. Nada mais normal do que queimar os últimos cartuchos. Mas há limites. A instigação do medo, a chantagem e a demagogia são alguns deles. Ontem, o candidato ultrapassou-os todos.

Há uns dias afirmou que o país não suportaria os custos económicos de uma segunda volta, atacando a essência da democracia e tentando contaminar o eleitorado com o seu próprio pânico de não ser eleito à primeira. Agora, diz que se a sua recondução não for garantida no Domingo, corre-se o risco de o juro da dívida aumentar. Enfim, o que Cavaco gostava mesmo era de uma Marinha Grande. Como não há, embarcou na linguagem das trevas. Se os portugueses não o elegerem já, serão castigados. O céu abater-se-á sobre as suas cabeças. Chegará a peste. Uma prédica destas só pode ser inspirada nas narrativas do Terramoto de 1755. E isso sim, é profundamente aterrorizador.

Publicado no Correio da Manhã.
O LOBO E A COELHA

As acções, a Aldeia da Coelha, o financiamento da campanha 2006, o Conselho de Estado, as comissões de honra, mostram que a matilha BPN não é só ex-colaboradores de Cavaco. Continua a ser uma parceira. O que é relevante, sobretudo, para quem alardeia beatíficas qualidades pessoais, em vez de posições políticas. E ao remeter explicações para o pós escrutínio que uma campanha também representa, o candidato revela o seu desdém pela transparência que a instituição máxima do regime obriga. Enfim, mais uma razão para lutar por uma segunda volta.

Mas Cavaco alega que isso seria demasiado dispendioso. E como tem a campanha, de longe, mais cara (embora prometesse contenção), percebe-se que sob o seu ataque à democracia e populismo, sob os custos económicos para Portugal, fala dos custos políticos que outra volta teria para si próprio. A única variável que, algum dia, o motivou. Essa sim, uma pesada factura para o país. Já descontando o buraco BPN, claro.

Publicado no Correio da Manhã.

CHEIRA A MOFO

Com orgulho latino, Cavaco gabou-se da mulher, cuja reforma é de 800 euros, depender dele economicamente: “Mas como ela está sempre ao meu lado, merece”, disse. De facto, a senhora ladeava-o sorrindo, merecendo a magnânime assistência. Já os que auferem reformas bem mais baixas (muitos) e que não têm cônjuges Presidentes (todos) ou os que defendem uma sociedade com mais equidade entre géneros não terão sorrido.

Num debate, o recandidato dedicou o seu minuto a elogiar mães e donas de casa. Mas não se referiu às mulheres na vida empresarial, académica, cultural, política. Ou aos homens que tratam da casa e filhos. Cavaco opôs-se à lei da paridade e à legalização da IVG. À violência doméstica respondeu com um silêncio sepulcral. Enfim, este mofo corresponde a uma certa perspectiva do país. O da moral e brandos costumes, ordeiro, à procura do pai providencial. Que faça por merecer ajuda. E lhe fique eternamente grato. O portugalinho pobre mas bem-agradecido.

Publicado no Correio da Manhã.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Fui votar

Fui votar pelas 14h.Havia um certo movimento nas mesas de voto da freguesia de S.Mamede, em pleno concelho de Lisboa. Umas empinadas escadas de acesso fizeram-me antever as minhas dificuldades em subi-las e descê-las daqui a vinte anos, como as daquela senhora que se arrimava à bengala com determinação, e me deu hoje,discretamente, um grande exemplo de cidadania.Espero que ela ainda não tivesse tirado o cartão único para ter a certeza que o seu nome estaria nos cadernos eleitorais da Junta de Freguesia como dantes...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Córtex Frontal toma posição sobre as presidenciais

Há anos que prosseguimos um objectivo comum: ajudar a criar as condições para o crescimento de uma alternativa de esquerda plural ao situacionismo vigente.

Assim fomos apoiantes empenhados da candidatura de Mário Soares nas eleições passadas, e assistimos de perto à forma como as esquerdas perderam esse importante cargo, ocupado até aí por personalidades desse vasto espaço político. Todas as forças políticas da área apresentaram então candidatos, e o PS até gerou dois. A vitória de Cavaco Silva ficou desde logo assegurada pela unidade da direita e a provocada divisão à esquerda. A própria campanha de Mário Soares decorreu num ambiente de grandes dificuldades dada as medidas que o governo de José Sócrates tomava entretanto, e que diminuíram significativamente a base eleitoral de apoio do grande fundador do regime democrático em Portugal.

Cinco anos depois, embora com troca de papéis e até com novas alianças, as presidenciais voltam a demonstrar como as forças de esquerda desistiram de fazer delas um momento axial da sua estratégia de defesa dos cidadãos, do regime democrático, e de fomento de uma possível federação para o progresso de Portugal no Mundo… De certa maneira a esquerda refugia-se na Assembleia da República e desiste de disputar o cargo de Presidente da República. A lógica situacionista dos aparelhos partidários impôs-se uma vez mais sem curar de nenhuma perspectiva de vitória. Os candidatos ditos da cidadania vieram atestar que estas eleições terão de novo um vencedor antecipado.

Esta atitude defensiva e derrotista das esquerdas nas eleições presidenciais precisa de ser denunciada em tempo real para evitar falsos actos de contrição, sobretudo num momento tão grave para a vida colectiva dos portugueses como o presente. A crise que Portugal, e a Europa, atravessam também se deve à desistência na apresentação de alternativas de progresso e de promoção dos interesses públicos e gerais.

Estas eleições presidenciais de 2011 serão estéreis para o futuro de uma alternativa de progresso à esquerda, o que explica o silêncio e a desmobilização dos cidadãos como nós que avaliam muito negativamente o actual mandato de Cavaco Silva, co-responsável pelo sufoco em que vive actualmente a sociedade portuguesa na União Europeia

Faz falta uma robusta alternativa a Cavaco Silva nestas eleições. O nosso voto só faz sentido para impedir que estas eleições se transformem num perigoso plebiscito ao segundo mandato do actual Presidente da República. E para evitar a redução das hipóteses de renascimento e federação das forças de progresso social no futuro.


José Medeiros Ferreira
Joana Amaral Dias

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A TOCA DA COELHA




Presidenciais e mais presidenciais

Por muito que se considere a campanha desinteressante, o certo é que as presidenciais estão na ordem da semana.No que me diz respeito, ontem foi noite de TVI com Bagão Félix, Santana Lopes e a moderação de Constança Cunha e Sá.Hoje é o artigo no Correio da Manhã intitulado
O Perigo Plebiscitário.Não precisa de explicação.
Amanhã o Córtex-Frontal toma posição.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Estado das instituições europeias

Muito importante a nova dinâmica entre as instituições europeias no meio da crise: Conselho Europeu bloqueado por Angela Merckel, Comissão paralizada não se sabe por quem, Banco Central Europeu a arcar com a resposta possível neste momento, mas que poderá ser decisiva para o futuro da zona euro.Bela despedida do presidente Trichet.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Saber escrever

Excelente, brilhante, cativante e comovedor texto de Manuel Halpern, que andou com o meu filho na escola, sobre a nova ordem ortográfica portuguesa.Sou dos que vai precisar pelo menos do período de transição.Por isso agradeço à Joana Lopes ter trânscrito o metatexto .

sábado, 15 de janeiro de 2011

Primeira semana de campanha

 É SÓ O COMEÇO

No primeiro mandato, Cavaco Silva primou pela cooperação estratégica com Sócrates. Geralmente, adoptou a atitude ‘deixem o governo trabalhar’. Na prática, só dele discordou em relação aos costumes, vetando diplomas correspondentes como, por exemplo, a lei do divórcio. Ou seja, nas políticas económicas e sociais esteve de acordo com este executivo. Foi cúmplice e contribuiu para a actual situação, abdicando dos poderes presidenciais que poderiam alterar o rumo do país. Chegou mesmo a emprestar Catroga, um dos seus homens-fortes, para negociar o orçamento. É verdade que, perante as políticas nada socialistas do governo, o presidente estaria tendencialmente de acordo. Mas não foi esse o principal motivo para adoptar essa estratégia. A razão maior foi garantir a sua reeleição. Para não levantar ondas que o prejudicassem, anuiu a tudo. Dúvidas restassem e repare-se nesta semana de campanha.
Quase subitamente, o candidato passou a criticar o governo, a demarcar-se das suas opções, a falar de uma crise política. Com que coerência ou até moral, é caso para perguntar. Mas isto é só o começo, como o próprio disse a outro propósito. Cavaco prepara o segundo mandato. Mais activo. Sobretudo, mais favorável a um atalho para a direita chegar mais depressa ao poder.
Publicado no Correio da Manhã.


 PECADILHOS PRESIDENCIAIS

Ao contrário de outros ocupantes de Belém, Cavaco não conseguiu expandir a sua base eleitoral. Logo, não poderia dar-se ao luxo de perder simpatias nos sectores mais conservadores. Mas nem a colagem que fez à visita do Papa a Portugal conseguiu apagar a raiva que a promulgação do casamento entre pessoas do mesmo sexo provocou na igreja católica. Daí que o recandidato se desdobre em piscadelas de olho a essas hostes. A ponto de muito criticar os cortes no ensino privado. Mas ontem, deu mais um passo. Como a igreja católica e outros cultos estão legalmente impedidos de apelar ao voto num candidato e, neste caso, pouco motivados em recomendar a cruz num “traidor”, Cavaco pediu a um padre que apelasse ao voto. Nele próprio, subentenda-se. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Mesmo que, pelo caminho, pise princípios como a laicidade do Estado. Ou mesmo esse valor básico que é um pouco de decoro, senhor.

 MOITA-CARRASCO

Além do objectivo de evitar a vinda do FMI (por motivos diversos), São Bento e Belém partilham, nestas presidenciais, outro denominador comum: o apelo ao silêncio. O Presidente requer, reiteradamente, que não critiquem os mercados. Que, perante a ofensiva, se “coma e cale”. E nada esclarece sobre o BPN. Já o Primeiro-Ministro entende que o melhor é “não falar” sobre a ajuda internacional. Também o Ministro das Finanças censura quem discute o BPN alegando que isso prejudica o banco. O Presidente agradece.
Pelos critérios de Cavaco, Sócrates e Teixeira dos Santos, sobre a crise, as respectivas respostas e o banco que ficará para a história como o escândalo do regime, os portugueses deveriam ficar quietinhos e calados. Vingassem estes critérios e sobre nada relevante se poderia falar, mesmo durante uma campanha eleitoral! Enfim, estes “xius” e “caludas” dizem tudo sobre a concepção de democracia de quem os profere. E sobre os que une.


ACÇÕES E PALAVRAS

O cidadão Cavaco Silva comprou e vendeu acções da SLN (sem cotação na bolsa, logo, por contrato) a uma empresa dirigida pelo círculo político da sua criação.Tão próximo que, já Presidente, nomeou Dias Loureiro conselheiro de Estado e fez a sua defesa pública. Com esse negócio, rapidamente lucrou mais do que o BPN ganhou nesse ano. Aliás, as vantagens de Cavaco (140%), somadas a muitas outras mercancias, sepultaram o banco e são agora ferozes prejuízos para o país.

Com os contactos que tinha no BPN, como accionista e magnificente economista, é difícil crer no candor de Cavaco. Além disso, sem dúvidas, promulgou a nacionalização do banco (excluindo a SLN) e incluiu nesta comissão de honra (!) vários desses correligionários. Cavaco bem pode persistir no acto de "remediado e honesto".
Não está em causa o miolo do seu colchão. Mas a sua transparência. Só garantida pela divulgação do dito contrato. O BPN não devia consumir estas presidenciais. Se o fizer, a responsabilidade é do candidato. Porque teima em nada esclarecer. Porque sobre outros temas também nada esclareceria, valendo-se do dom para falar sem nada dizer ou ficar calado. Mas, desta vez, os seus gongóricos tabus podem sair-lhe caros. E hipervalorizar a questão. Para aí em 140%.

O Euro e a Península

Desde o 25 de Abril que Portugal não suscitava tantas atenções das chancelarias e da imprensa internacional.Com efeito a zona euro joga-se por estes dias na Península Ibérica.É um extraordinário volte-face em relação à situação vivida pela Grécia e pela Irlanda em que só a sorte imediata desses países parecia em causa.O resto é para ler na rubrica Cabo Submarino que assino no Correio da Manhã.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A foice em seara alheia

Uma freira terá testemunhado um milagre atribuído à mediação do Papa João Paulo II.Falta outro para o processo de beatificação ser aberto no Vaticano.A Igreja Católica devia dispensar «milagres» para honrar os seus conforme entendesse e tem direito, mesmo que seja no paradigma da «imitação de Cristo».E não devia aceitar testemunhos de pessoas dependentes da hierarquia eclesial.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Paira um espectro sobre a campanha presidencial

O título de hoje no CM deve-se à possibilidade da entrada dos fundos associados em Portugal.Defendo a tese que Cavaco Silva espera que tal não aconteça até ao dia do voto final nas presidenciais.Conta para isso com a acção de forças diversas desde a própria acção governamental-até agora coroada de êxito- até aos efeitos retardadores de personalidades bem colocadas para o efeito como Durão Barroso, Vítor Constâncio e António Borges.A política não é uma linha recta.

Repúblicas bicentenárias

Um responsável da campanha de Cavaco Silva fez uma referência inculta e grosseira às repúblicas sul-americanas que certamente embaraça o actual PR no seu comércio institucional com os chefes de Estado desse continente nas sucessivas cimeiras ibero-americanas. Mas a má-educação revelada numa queixa à Comissão Nacional de Eleições não esconderá uma nostalgia metafísica por outra origem do Poder?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Mourinho em português

Bati palmas cá em casa quando Mourinho explicou em Zurique que falaria em português na cerimónia de entrega do troféu de melhor treinador do mundo de futebol.Reconhecido poliglota, com gramática, a escolha foi o maior serviço à língua portuguesa desde o prémio Nobel a Saramago.E, nesta apagada e vil tristeza em que vivemos, serviu de sobressalto patriótico.Duvido , no entanto,que sirva de exemplo.Primeiro porque há sempre quem prefira dizer mal noutra língua o que os nativos dessa pensaram melhor.Depois porque o valor da língua em termos internacionais depende da excelência do trabalho dos que a usam como língua materna.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Recapitular

Aqui fica, na íntegra, o artigo publicado no Correio da Manhã :
A Esquerda perdeu o pé nas presidenciais há cinco anos e não conseguiu emendar o passo nestas. Enquanto a direita se apresenta mais uma vez unida à volta de um só candidato, a esquerda esbanja-se na apresentação de múltiplos talentos semi - presidenciáveis sem esperança de ocupar um cargo que foi seu durante décadas.
Esta subalternização da questão presidencial nestas eleições deve-se a variados factores, o primeiro dos quais tem a ver com o cálculo de probabilidades inerente a uma campanha em que o detentor do cargo volta a ser candidato. A esquerda está numa atitude defensiva, mascarada de contra-ataques pontuais.
A esquerda pode fazer muito melhor no período de campanha eleitoral se apresentar uma plataforma programática de entendimento para uma eventual segunda volta que recentre a discussão nas grandes questões nacionais enp modo de as resolver por um futuro PR.

A Esquerda na circunstância

A esquerda perdeu o pé nas presidenciais há cinco anos e não consegue acertar o passo nestas.

Esta é a súmula da coluna publicada hoje no CM.Que acaba com uma sugestão :
«A esquerda pode fazer melhor no período da campanha eleitoral se apresentar uma plataforma de entendimento para uma eventual segunda volta.»

domingo, 9 de janeiro de 2011

Vítor Alves-o meu capitão de Abril

Se tivesse que escolher o meu capitão de Abril preferido escolheria certamente Vítor Alves. Moderado, cordial, mas firme como uma rocha, aprendi a apreciá-lo no meio de algumas decisões e atitudes que definiram o futuro de Portugal em democracia.Fazia tudo com uma extrema elegância e tacto.Sabia como ninguém reunir meios adequados para os objectivos em vista, e mantinha a calma mesmo debaixo da maior pressão.Conheci-o em casa de Vítor da Cunha Rêgo que nos quis reunir no período quente de 1975.Depois fizemos parte do Governo presidido pelo inesquecível Almirante Pinheiro de Azevedo que lhe entregava a condução efectiva da discussão da ordem de trabalhos no Conselho de Ministros, tarefa que o oficial com o curso de Estado-Maior desempenhava com grande eficácia e proveito de tempo.No intervalo da actividade política era um companheiro de primeira.Lembro-me agora de umas ceias na Ribadouro, ou de uma rocambolesca ida ao Porto em que até fomos ao futebol ver um jogo do Boavista.Mais tarde pediu-me para ir com ele a Beja fazer campanha pelo PRD, círculo por onde era sacrificado candidato.Foi num dia de verão em que o planeta Terra já tinha aquecido tudo. Não havia vivalma nas ruas e praças da cidade alentejana.Nunca perdeu o humor nem se queixou da maldade dos homens.
Devo-lhe o reconhecimento público da influência que a minha comunicação enviada para o Congresso de Aveiro, em Abril de 1973, intitulada«Da Necessidade de um Plano para a Nação» tivera na elaboração dos textos programáticos do MFA, dos quais aliás ele fora um dos redactores.
A notícia da sua morte enche-me de tristeza.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Agora aos sábados na página dois

Com o Ano Novo passei a escrever no Correio da Manhã ao sábado na página dois.Passo a dispor de mais caracteres. Neste primeiro artigo, intitulado Um Ano Decisivo, chamo a atenção para as mudanças drásticas que podem ocorrer na vida portuguesa e europeia em 2011.Dá a impressão que se desenha uma nova versão da Europa Fortaleza da qual não faremos parte.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Serviços mínimos

Parece que os líderes partidários do PS e do PSD, José Sócrates e Passos Coelho, vão aparecer finalmente na campanha presidencial ao lado dos seus candidatos.Já conseguiram que se percebesse que nesta eleição estão ambos em regime de serviços mínimos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Os debates sobre os debates das presidenciais

Gostei de participar ontem num debate sobre as presidenciais na TVI-24, moderado pela Constança Cunha e Sá e com a participação de Santana Lopes e de Fernando Rosas.O tema BPN esteve presente, como não podia deixar de ser, mas não dominou o debate.Os intervenientes foram muito mais longe sobre o que devia ser a agenda desta campanha:que tipo de governo os candidatos patrocinariam no início, e no decurso, do respectivo mandato, que iniciativas os presidenciáveis tomariam perante a crise europeia e perante o tratamento negativo sistemático que os países do arco periférico daUE estão a receber,o que pensam dos projectos de revisão constitucional anunciados, que interpretação efectiva fazem dos poderes do PR, etc.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

As relações do Banco de Portugal com o Estado

A valorização mundial do ouro trouxe à baila a política de gestão de activos e reservas do Banco de Portugal.Ninguém pede que o BdP se desfaça significativamente das suas reservas em ouro,até porque há compromissos internacionais na matéria, mas já é matéria de reflexão o facto do Estado não poder contar com o banco central em situações como a actual, sobretudo na vertente externa, e na distribuição excepcional de dividendos em momentos de aperto como o actual.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Porque será que a geração de 60 ainda incomoda tanto?

Confesso que passei os olhos pelo artigo da Helena Matos sobre as culpas cósmicas da «geração de 60», mas passei à frente.O período natalício remete-nos inconscientemente para o Pai Natal.Mas hoje ao ler o demolidor post de Joana Lopes perguntei-me a mim próprio porque será que a geração de 60 ainda faz figura de papão?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Um ano que passou rápido

O Francisco José Viegas, e o Pedro Correia, recordaram, ontem, a passagem do primeiro aniversário deste blogue.São dois leitores preferidos cá de casa, além de os lermos diariamente.Aliás, um dos objectivos do Córtex é ser um blogue de presença quotidiana, sem fazer disso um imperativo categórico! Muitas vezes não há tempo, ou matéria, para postar.Aliás começo sempre por dar uma volta pela blogosfera antes de me sentar na cadeira de editor.Mesmo assim, contando as minhas com as da Joana Amaral Dias que crismou o blogue, foram mais de 400 entradas neste ano.Que passou muito rápido.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um Feliz 2011, para além de Janeiro

Tudo indica que o calendário das presidenciais termina em 23 de Janeiro.É assim que acabo o meu último artigo à sexta-feira no Correio da Manhã.Volto ao sábado na página dois.Com votos de um Feliz 2011, mesmo que não seja um ano muito próspero!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Trabalho para casa

Por muito que Cavaco Silva estivesse ao ataque, ontem, sobre as suas intenções em relação ao
Estado Social (Uma expressão falsamente de esquerda, que é uma homenagem póstuma a Marcelo Caetano), levou destes debates para casa um trabalhinho sobre o que o BPN significa: o viveiro de espertalhões influentes que o cavaquismo inaugurou na vida do regime democrático -nunca se tinha visto antes ex-governantes e afins enriquecerem tão vertiginosamente- mau exemplo que depois alastrou como erva daninha.Falta uma forte palavra de condenação e repúdio.Quem sabe se na mensagem de Ano Novo?

A pré-campanha acabou

Com o debate entre Alegre e Cavaco acabou praticamente a pré-campanha eleitoral.Só esse facto é favorável ao actual PR. Conseguiu manter o estilo institucional que tanto lhe agrada.Alegre foi melhorando com o decurso dos debates televisivos, mas sem alterar a sensação de que só corre até 23 de Janeiro.Falta menos de um mês.Mas um mês instuticional.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A noite de Manuel Alegre

Manuel Alegre joga hoje o resultado da sua candidatura à presidência, e o que valeu e significou o celebrado milhão de votos contra Mário Soares há cinco anos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O Ai do Presidente

João Gonçalves é um magnífico apoiante.Neste caso de Cavaco Silva.Descobriu que o PR deu um Ai quando promulgou a actual lei do financiamento partidário que tudo retira ao Tribunal de Contas com uma Nota exculpativa, ou exculpante como lhe chamam os brasileiros mais sabidos sobre o que é sacudir a água do capote.

Um presidente errático

António José Seguro votou sozinho, na AR, contra a actual lei de financiamento partidário que vem revelando os truques de que é feita e os malefícios que pode trazer à saúde moral do regime.O PR promulgou a lei sem dizer Ai. O governo apresentou um diploma razoável sobre o condicionamento das subvenções estatais ao ensino particular e cooperativo.Os contratos de associação aplicam-se sobretudo a antigos seminários diocesanos reconvertidos em escolas.O PR ameaçou vetar o diploma e promoveu uma clarificação conceptual sobre a matéria antes de o promulgar.Tudo bem.Mas escapa a alguém o desnível geral das suas preocupações?

domingo, 26 de dezembro de 2010

A globalização fugidia

Hoje o Correio da Manhã faz-se acompanhar de um suplemento sobre o balança de 2010.Lá escrevo sobre A Globalização Fugidia.Com efeito a globalização está a fugir das mãos dos seus criadores no campo financeiro, comercial, tecnológico.Por enquanto só o campo militar parece centrado.Parece, pois a guerra de usura continua na periferia.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O ano dos orçamentos

Este ano a União Europeia exigiu muito mais de Portugal do que deu em troca.Alterou-se assim os termos do contrato entre Lisboa e Bruxelas.Foi O Ano dos Orçamentos, como escrevi no Correio da Manhã.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O problema do segundo lugar

As presidenciais, segundo as sondagens, estão a parecer-se com aqueles campeonatos em que já se sabe quem será o primeiro há muito tempo.O problema é que nestas presidenciais o segundo lugar não dá acesso a mais nada.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O regresso dos Livros Brancos?

Sempre foi minha convicção que o essencial da mancha humanitária constituida pela existência das prisões em Guantánamo seria dado a conhecer ao mundo pelos próprios norte-americanos.E sempre me pareceu que os comparsas estrangeiros da administração Bush não tinham consciência dessa tendência temporal dos EUA à transparência. Mas nunca imaginei que desta vez a transparência fosse arrancada pela Wikileaks, que confesso não saber o que é.
Ora, antigamente, os governos tinham o bom hábito de publicar Livros Brancos.A melhor resposta ao suspense provocado pela Wikileaks seria o anúncio por parte do governo dos EUA, e de outros como o nosso, da publicação de livros brancos com os documentos oficiais seriados sobre as matérias dispersas que chegam hoje em dia aos jornais.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

PISA e Pigmaleões

Há anos que se fala cá em casa dos resultados do PISA.Tenho uma ideia muito aproximada do que seja.Fiquei animado com os últimos resultados e achei oportunista a maior parte das reacções de regozijo, ou dúvida, que suscitaram.Muito se falou de responsáveis pela melhoria do desempenho escolar dos jovens de 15 anos objecto dos testes da OCDE.Como no My Fair Lady todos se esqueceram de Elisa Doolitle no sofá.Finalmente Daniel Sampaio na revista Pública chama a atenção para os sujeitos da oração: os alunos que foram testados.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Os Estados ciberdependentes

A corrida ao ciber espaço foi como a corrida ao ouro da Califórnia.Demasiada areia para peneirar pepitas.Em vinte anos os EUA seduziram muitos Estados a servirem-se da «rede».Alguns, como Portugal, enfiam tudo o que podem nela, acreditando na civilização do écran. e rejeitando mais uma vez a civilização do papel e do livro-uma tendência assente na Contra-Reforma.Se os EUA,- mais precisamente o Departamento de Estado-foi apanhado na sua rede, que destino está reservado aos documentos oficiais de Estados como Portugal?Sempre alertei o José Magalhães para a «cegueira» que a Internet pode provocar...
Acabo assim o meu artigo no Correio da Manhã:
«Triste mesmo é não haver nenhum jornal nacional na lista (de distribuição) do sueco.Até Luis Amado só reage ao El País.»

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Carlos Pinto Coelho

Era um Homem cordial e entusiasmado. Esteve na RTP acreditando no serviço público. Apoiou e promoveu uma excelente grelha de programas que faziam da RTP uma das melhores do continente europeu.E sei bem do que falo em termos comparativos.Convidou-me para o primeiro programa do Acontece.Gostava de se rodear por quem apreciava.Era um federador nato.Capaz de reunir gente muito diferente. Como tão bem o escreveu o Pedro Rolo Duarte para quem vos remeto.Com um abraço à Clara Alvarez.

Decifrando...

Naquele telegrama do embaixador republicano dos EUA em Lisboa em que se fala do talento de Sócrates em cooptar, ou eliminar, elementos tidos por serem da ala esquerda do Partido Socialista, podemos supor que os cooptados foram, entre outros, Alberto Martins e Augusto Santos Silva? E os eliminados, gente como eu que tendo sido acusado pelos revolucionários de 1975 de ser um direitista sente ser sua obrigação distanciar-se da deriva opressora tolerada pelos recém instalados?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Michael Moore financia Wikileaks

Jornadas Universitárias

Estive alguns dias em S.Miguel a participar numas jornads universitárias .Foi compensador verificar como há muitos investigadores emergentes a trabalhar bem, apetrechados com conhecimentos adquiridos em várias universidades portuguesas e estrangeiras.Temos gente para depois da crise.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

As ilhas de excepção

Cavaco Silva, mudo e calado sobre tantas iniquidades, desde o BPN à não tributação das mais valias de grandes empresas, abriu uma excepção para contrariar a decisão da Assembleia Legislativa dos Açores de não aplicar os cortes salariais até aos 2 mil euros. Mas pior ainda é quem compara accionistas que antecipam dividendos milionários, furtando-se a um dos seus poucos deveres fiscais, a funcionários públicos que já eram mal pagos. Até porque a regra é isentar a tributação dos rendimentos do capital. Nem em crise há ressalva. E a regra é sobrecarregar os rendimentos do trabalho. Nem agora houve excepção. Enfim, a lógica do tudo-no-mesmo-saco visa pôr as vítimas da austeridade a acusarem-se reciprocamente, potenciando o sucesso do carrasco.
      Certo é que se estes e outros dividendos fossem taxados e existisse eficácia fiscal, não necessitaríamos da anorexia salarial. Logo, o problema não é a diferença açoriana. O problema é  a norma continental. Foi esta a posição política de Carlos César, discordando dos actuais cortes enquanto solução para a crise e do caminho do PS. Pena que o debate nesse partido não tenha sido mais frontal. Até porque 200 mil votos açorianos não dão projecção nacional e, certamente, aumentar salários não agrada aos patrõezinhos do continente. 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A nova AD não existe

A nova AD não existe, é o título do Cabo Submarino hoje no Correio da Manhã.Com efeito os tempos são outros e uma mera coligação PSD-CDS já matou a anterior e nada resolveu quando formou governo entre 2003 e 2005.Não basta recordar Sá Carneiro.

wikileaks

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

As presidenciais na televisão

Cavaco Silva age como se fosse o candidato oficial do regime.Manuel Alegre como o dissidente.Será mesmo assim?Os debates na televisão, agora anunciados, irão dinamizar a campanha e esclarecer o qui pro quo? Duvido

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Resposta rápida

Tive a oportunidade de ver o lance da marcação do pénalti do Setúbal contra o FCPorto no Dragão.O árbitro Elmano Alves tremeu tanto por o ter assinalado que se enganou no jogador do Porto que amarelou, e precisou de mais tempo que o habitual para apitar a execução da grande penalidade, soavam os 90 minutos do jogo.Anulou o golo do empate com esse pretexto, e logo se viu que tinha desequilibrado psicológicamente o jogador do Setúbal, obrigado a rezar pela segunda vez. Manuel Fernandes, uma personalidade simpática no meio futebolístico, devia ter mudado logo de executante.Para não se queixar depois.Futebol é interdisciplinar.

Movimento diplomático

Uma consequência quase certa da inconfidência da wikileaks será um amplo movimento diplomático norte-americano.Por exemplo, para onde irá o diplomata que caracterizou a sociedade russa como sendo governada por serviços de informação através de uma oligarquia política e económica corrupta?

Quadro de Honra

Devia haver um site com uma lista das empresas que declarassem não proceder à distribuição de dividendos extraordinários em 2011, digo neste ano de 2010.
Esta sugestão ocorreu-me há dias ao ler uma esclarecedora entrevista de Vasco Melo ao suplemento de Economia do semanário Sol.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

No BCE sabe-se história da Moeda

O BCE resolveu comprar títulos de dívida dos Estados da zona euro.Finalmente os mercados «acalmaram».Foi com um banco central a comprar títulos de dívida que as grandes zonas monetárias se constituíram.A começar pela dos EUA.A história da Moeda devia ser obrigatória nos conselhos europeus.À hora das sandes.
Assim temos um espaço de tempo para se pensar melhor nas soluções governativas, o tema do meu artigo no CM.

Ernâni Lopes

Tinha uma grande consideração por ele.Em comum um sentido do interesse geral acima de qualquer outro critério público, uma vontade permanente de dar a Portugal as melhores condições de prosperidade e liberdade.Por isso nos entendíamos com facilidade.Nunca discutimos metafísica .Ernâni Lopes foi um dos primeiros a acreditar na adesão da República Portuguesa à então CEE e deu um contributo fundamental para o efeito.Mas manteve, contrariamente a muitos outros, um sentido crítico apurado, como pude apreciar num programa que tivemos em comum na Rádio Renascença durante a última presidência de Portugal.Tinha, às vezes, uma visão demasiado radical dos remédios que seria necessário aplicar para resolver as crises. Mas nunca desistiu de dar um rumo à sociedade portuguesa.Como nunca desistiu da vida.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Quem não é do Real, não é bom português?

Sigo o Barcelona-Real Madrid pela SportTv.Até ao intervalo um excelente jogo.Escusada a insistência dos comentadores em desenvolverem o ponto de vista do Real.Não é preciso tanto.Nem sequer fica bem.

Delete

Para quem como eu frequentou, quando fazia pesquisa histórica, os arquivo oficiais das principais potências ocidentais ainda não li nada de muito extraordinário nos telegramas e relatórios do State Department agora revelados.A diferença reside sobretudo no facto de esse tipo de documentos precisar, nesses países, de um prazo médio de trinta anos para serem tornados públicos.E claro com muitas anotações de Delete para pará grafos, ou documentos inteiros, devidamente assinalados, retirados por questões de segurança.Normalmente eram apreciações de personalidades políticas feitas pelos diplomatas em cada capital com a carga subjectiva subjacente. As malandrices pesadas ficam normalmente a cargo de outras agências...

domingo, 28 de novembro de 2010

Por pouco

O SLB até fez hoje uma boa exibição.Ainda por cima um pequeno detalhe impediu a declaração de Jorge Jesus que eu mais temia no fim do jogo com o Beira-Mar : a de que esta era a segunda vitória consecutiva do Benfica na Liga sem sofrer golos...

sábado, 27 de novembro de 2010

Descubra as diferenças segunda-feira

O jogo entre o Sporting e o Porto foi um tédio.O jovem Villas-Boas não parece fadado para dificuldades. Dois empates, duas expulsões do técnico portista.Um estudioso temperamental?
Estou ansioso pelo Barcelona-Real Madrid.Para ver as diferenças.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Reactivadores da luta de classes

Hoje no Correio da Manhã chamo a atenção para os reactivadores da luta de classes em época de crise.É só ler!
Quanto ao resto a «minha» internet por wireless continua intermitente.

Fim-de-semana

Brain Food

Como era de esperar por Manuel António Pina, no JN
FMI: as causa da crise por JM Correia Pinto, no Politeia
Entre marido e mulher, alguém meta a colher por Andrea Peniche, no Minoria Relativa
Eating the Irish por Paul Krugman, no New York Times

O mercado laboral acrobata


O mercado de trabalho português é muito rígido. As nossas leis laborais precisam de ser flexibilizadas. O melhor é mesmo substituir o “justa causa” por qualquer coisa “inatendível”. Os portugueses vivem acima das suas possibilidades. Há muito malandro por aí que não quer trabalhar. Os jovens de hoje são uns pirralhos mimados que só saem de casa na altura em que a geração anterior já quase tinha netos. É isso tudo e muito mais. O que se esquecem de dizer são coisas como esta. 
Portugal está entre os três países da UE com maior percentagem de trabalho temporário (com a Polónia e Espanha). Em Portugal, é temporário um em cada cinco trabalhadores de idade entre os 15 e 49, contra um em cada dez na UE. Nos trabalhadores entre 50 e 64 anos, a média europeia é a de que um em cada 20 empregos é temporário. Mas em Espanha e Portugal é cerca de dois em cada 20.
Trata-se do resultado de escolhas políticas desde os anos 80 que desregularam os contratos de trabalho. Já que hoje em dia falar da política feita em nome das pessoas parece ser  crime,  e se  quem tomou e toma estas decisões pouco se importa que o emprego temporário tenha como efeito o aumento do desemprego, o reduzido acesso à formação,  o risco de muitos jovens ficarem apanhados entre empregos temporários e intervalos de desemprego, adiando a sua emancipação e vivendo em permanente estado de insegurança, se são indiferentes aos efeitos destas escolhas sobre as populações, pode ser que sejam sensíveis ao resto: a fraca expectativa de vida leva esses trabalhadores a esforçarem-se menos, levando a um abrandamento significativo na taxa de crescimento do factor produtividade.
Soluções? A verdadeira flexisegurança. (E não a flexinsegurança à portuguesa): flexibilidade com forte protecção no desemprego (inclusive elegibilidade universal sem excepções consoante o tipo de contrato), um tipo de contrato que acabe com a assimetria entre contrato permanente e a prazo, uso de contratos temporários circunscrito a verdadeiras circunstâncias/tarefas temporárias.

O perigo numa T-shirt




Uns ocupantes de uma carrinha foram detidos porque tinham roupa preta na mala. Uns filandeses que vinham manifestar-se contra a NATO ficaram retidos em Espanha e o seu perigosíssimo material (tarjas e T-shirts) foi apreendido. Uma página da net foi proibida por divulgar a Contra-Cimeira. O anarquismo é apresentado como um crime e não como uma opinião. Fala-se de “manifestações não autorizadas”, embora a Constituição autorize todas e mais algumas, desde as espontâneas que ocorreram por Timor às também livres após vitórias eleitorais e futebolísticas. E até as do PND, cuja ideologia certamente desagradaria à NATO.
Paralelamente, correu uma nova onda de propaganda, desta feita sobre os manifestantes violentos. Procurou que não se discutisse a própria Nato embora ela se discuta a si mesma (como se a questão fosse os protestantes e não a organização); colocar todos os que reclamam no mesmo saco e desautorizar a contestação, às portas de uma greve geral.  
Assim se vê como é fácil suspender o direito à manifestação e à livre circulação dos europeus (que sempre foi preterido ao dos bens). Como as liberdades dos tratados da UE só valem se de nada valerem. Quão frágil está o regime democrático. Como é simples instaurar um regime de excepção. Esse sim, sem autorização. E nada contestado.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A força tranquila da greve

O que mais me impressionou neste dia de greve geral foi a tranquilidade com que tudo se passou, inclusivé a forte adesão.Há muita gente que não quer perceber o que isso significa em termos de maturidade política do país.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Uma época perdida

Escrevi aqui em Agosto que este ano seria o último de Jorge Jesus no Benfica. Mas não imaginava que a época terminaria em Novembro.Não estará na hora de Rui Costa dizer alguma coisinha?Por favor só tratem dos reforços para o plantel com o próximo treinador.

Um País de telenovelas

Em primeiro lugar, parabéns à TVI por ter ganho um Emmys com a telenovela Meu Amor que não vi embora tenha tido conhecimento da revolução na produção de telenovelas que aquela estação televisava encetou há uns anos.Depois, desafiar o Francisco José Viegas a apresentar algo do género com que a Irlanda nos possa desafiar graças ao seu remediado PIB per capite. O James Joyce não vale...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Por uma liga dos amigos da Irlanda

Eles foram muitos nos últimos anos.Esmagavam os portuguses com o exemplo da Irlanda, o seu liberalismo económico, os seus impostos convidativos para empresas e finança-uma forma descarada de dumping fiscal na UE- de tal forma que muito capital sediado em Portugal emigrou à aventura para aquele paraíso na terra. Seria bom fazer uma lista de tais peritos opinativos e repetir pedagogicamente as suas lições sobre a Irlanda nos orgãos respectivos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um Papa tradicional-fracturante

Com os cuidados de alguém que não é de obediência católica recebi a ascensão do Cardeal Ratzinger ao papado com mais expectativa da demonstrada pelos fiéis de João Paulo II. Gostei da forma como se apresentou,li alguns dos seus livros, um sobre a história da Europa, outro sobre Jesus Cristo-eu um cultor da Vida de Jesus de Renan- e fiquei à espera que ele surpreendesse o mundo. Acaba de mostrar uma abertura suficiente ao uso do preservativo que só escandaliza quem vive no reino das trevas.Um Papa tradicionalista-fracturante.

sábado, 20 de novembro de 2010

Segue dentro de momentos...

Estou na ressaca Zon.Vieram cá a casa aumentar a velocidade da Internet e fiquei sem ela no meu velho computador pouco compatível com a moderna tecnologia introduzida.Pelo falar do « homem do colete» espero ver figurar o meu exemplar nalgum museu de arqueologia contemporânea que se venha a inaugurar. Só na segunda-feira vem cá a casa um ser misericordioso para ver se vale a pena operar o inválido, ou se devo comprar outro antes que o IVA dê um salto.Assim como uma espécie de dividendos-cidadão...Espero voltar então na segunda.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Estes irlandeses...

Tendo em conta que grande parte das dificuldades financeiras irlandesas foi originada pela gestão de bancos privados, há em Dublin quem queira limitar àquelas instituições a intervenção do fundo europeu isentando para já o Estado daquele procedimento.Uma ideia que cá ninguém teria por respeito mundano...

As Cimeiras de Lisboa

Omeu artigo de hoje no Correio da\Manhã versa o tema das cimeiras de Lisboa e o da importãncia da política externa para um pais como Portugal.Sem política externa estaríamos como os rutenos no Império austro-húngaro.Há quem nos queira levar para lá...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A guerra monetária invade a Irlanda ?

Lembram-se da Irlanda votar em referendo contra o tratado «constitucional» e contra o Tratado de Lisboa?Agora resiste sozinha à imposição de recorrer ao mal nascido Fundo Europeu com a cobertura distante do FMI. Mesmo as próximas vítimas pressionam Dublin para aceitar o diktat.Há quem só seja lúcido ao ler a História mais tarde. A Grécia já está a trabalhar no duro para o monetarismo continental.
Ninguém se refere à guerra das moedas e aos seus principais protagonistas. Talvez depois das cimeiras...

O universo de Fernando Aires

O meu amigo João Carlos Tavares, residente na Nova Inglaterra, avisou-me do falecimento de Fernando Aires por e-mail.Depois li um excelente texto de homenagem de Daniel de Sá através do blogue de Nuno Barata. Nele o notável autor de Ilha Grande Fechada escreve uma última página do Diário evocando o estilo e o universo de Fernando Aires. Considero os Diários de Fernando Aires como uma obra prima de emoção e bem escrever.Podemos continuar a lê-lo.Conversar na Livraria Solmar, ou em casa do Vamberto e da Adelaide é que será mais difícil.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O Chanceler da Blogosfera

O Pedro Correia teve a simpatia de me convidar para escrever hoje no blogue Delito de Opinião.O «red carpet» lá está impressionante.Se houvesse eleições para chanceler da blogosfera Pedro Correia vencia-as à primeira volta quer pelo sucesso dos blogues que já lançou quer pela cordialidade com que se relaciona com todos.Abraço amigo.

10 séculos em 5 minutos

Nova sondagem.

Está aí, no lado esquerdo. É só votar.

Querido, mudei a casa- 15 andares em 2 dias. Na China, claro.

Pastel de Belém


Os mercados arremessaram EUA e Europa para um crise inédita. Depois, conseguiram que grande parte da sua dívida fosse paga com dinheiro público. Não satisfeitos, continuam a extorquir nações. Perante o esbulho, que diz o Presidente da República? Desaconselha qualquer crítica. Recomenda que fiquemos caladinhos e quietos, deixando os saqueadores levarem o que quiserem. No primeiro mandato, Cavaco candidatou-se como grande economista capaz de resolver a crise do país. Vê-se. No segundo, alegou ir a eleições em nome de Portugal. Nota-se.
Mas se os demais candidatos a Belém são constantemente interpelados, Cavaco é permanentemente poupado. Se Alegre tem de opinar sobre o orçamento ou acerca das suas relações com o PS, a Cavaco é concedida uma moratória sine die, inclusive pelos socialistas, que já desistiram das presidenciais. Cavaco pode tentar enxovalhar a classe política, que não é confrontado com o seu longo passado de primeiro ministro; pode ter um representante nas negociações do Orçamento, que não é interrogado sobre as suas interferências no PSD; podem continuar os escândalos BPN, que não é questionado sobre a sua ligação à má moeda.
 Enfim, o conformismo do Presidente da República é um problema. Mas o conformismo do país perante Cavaco Silva não tem solução.

Publicado no Correio da Manhã

A cigarra medricas


Durante semanas, os especialistas em economês juraram que a viabilização do orçamento sossegaria os mercados. Mas o juro não baixou. Esses reputados zandingas, os que não viram a crise já ela rebentava a porta, seguem a lógica do relógio parado que acerta duas vezes ao dia. Erram quase sempre, mas logo arranjam nova explicação: primeiro era o excesso de salários; depois a inevitabilidade de um mau orçamento; agora, a má execução e até o debate parlamentar. Quais pessoas, qual emprego, qual quê. Acalmar e agradar aos mercados é o alfa e o ómega. Só que essas entidades não são um bebé rabugento que precisa de colo. São especuladores que visam o enriquecimento fácil e atacam o elo mais fraco. Hoje, aumentam os juros, exigindo “consolidação orçamental”. Amanhã, penalizam-nos porque essa consolidação impede o crescimento.
Renegociar a dívida? Difícil, pois implica uma iniciativa dos devedores. Distribuir sacrifícios? Mas manda quem paga, como diz Ferreira Leite. Pressionar o Banco Central Europeu a emprestar aos países da zona euro? Leva muito tempo. Enfim, a mercadologia corresponde ao conteúdo do centrão. Mas também à sua forma de fazer política: apostar sempre em soluções imediatistas com pesados custos a longo prazo. Nunca em planos estratégicos com grandes ganhos no futuro. 

Publicado no Correio da Manhã.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Merkel não acalma os mercados

Angela Merkel quer entregar a estimada República da Irlanda, depois da mal-amada Grécia, nas mãos do híbrido consórcio Fundo de Estabilização daUE-FMI, irritada por haver ainda quem, no mercado global, compre a dívida de países que a chanceler da Alemanha quer reduzir às suas vistas.Insiste assim na penalização das instituições de crédito que lhe não entreguem as vítimas. Merkel não quer acalmar os mercados.

domingo, 14 de novembro de 2010

Grandes jogadores sem valor de mercado

Dois avançados portugueses com mais de 30 anos deram hoje nas vistas: João Tomás e Nuno Gomes.O primeiro, com 35 anos é agora o melhor marcador português no campeonato, Nuno Gomes, com 34, jogou escassos 5 minutos concedidos por capricho pelo treinador e marcou um golo de desforra que entusiamou os adeptos presentes no estádio da Luz saudosos do seu estilo como futebolista e como pessoa. São ainda dois eficazes avançados que estão abandonados à sua sorte porque dificilmente terão um mercado de transferências que dê para os emolumentos gerais.Este ambiente alastrou nos últimos tempos à selecção.No futebol só tem lugar de destaque quem ainda se pode transferir.Quem é mercadoria.

sábado, 13 de novembro de 2010

O governador que se examine

Percebe-se que Carlos Costa ainda não assentou no seu cargo de governador do Banco de Portugal.Não falo de qualquer atitude interna que não sei se há algo a averbar, mas das declarações «fleuve» que prodigaliza quando fala em público: torrencial, preso a uma oralidade mais entoada do que pontuada, perde-se em considerandos de comentador. Um governador do BdP não é um conferencista de serviço.Num cargo como este o que é de ouro é o silêncio.Até se ter alguma coisa a apresentar que melhore as condições monetárias e financeiras do Estado.Deve levar cerca de um ano. Uns devem fazer o trabalho de casa, outros um exame de consciência...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Senhores e servos do mercado

Enquanto a« escola portuguesa dos mercados»olha para estes com o temor reverencial dos antigos servos da gleba, os cinco ministros das finanças dos países da UE presentes no G-20 em Séoul fizeram uma declaração conjunta isentando as instituições de crédito de qualquer penalização por emprestarem dinheiro aos países em dificuldades, corrigindo assim a ideia perversa da chanceler alemã obliterada pela vida interna dos landers.É uma boa notícia que será certamente apreciada entre nós pelos que ainda acreditam na UE.O resto vem no meu artigo no Correio da Manhã.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Palpites

Lula da Silva conhece bem o espírito dos mercados, e dos servos das trevas.Antes de participar na sua última reunião do G-20 como presidente do Brasil-«emergente»-declarou na generalidade que
«Antes todos davam palpites sobre o Brasil.Agora sou eu que os dou!».Deve-se ter fartado de rir durante estes anos, o antigo sindicalista.Ou de chorar...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Tanta coisa que se pode fazer...

Faz algum sentido que os Estados membros como Portugal não consigam executar os projectos cofinanciados pela Comissão Europeia por razões de contenção orçamental, e depois tenham de devolver os fundos não utilizados a Bruxelas? Não será de agrupar esses projectos, e, fazê-los avançar totalmente apenas com os fundos comunitários disponíveis? Os regulamentos não deixam? Então a Comissão Europeia bem pode apresentar o seu PEC-de Crescimento- aos Estados como Portugal.Em vez de receberem de volta, regulamentarmente e burocraticamente, o cheque dos endividados para o dividir pelos contribuintes líquidos.Nem sempre é preciso uma mudança de paradigma para remediar o que está mal...Caso se aja a tempo, claro...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Estado viaja em terceira classe no Titanic?

Agora foi a vez de grande parte da banca privada portuguesa baixar no ranking de uma das agências de notação. É uma má notícia que não chega a ser uma surpresa.Infantil, e ideológica, é a tentativa que está em curso de atribuir ao Estado a culpa dessa situação.Talvez por falta de supervisão, não?Há quem queira fechar o Estado na terceira classe do Titanic.Mas depois ficam sem tripulação para as manobras de salvamento...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Explorar a derrota

O SLB não soube explorar a vítória no campeonato.Perdeu-se na pré-época.Logo no primeiro jogo a sério na Luz percebeu-se que Jorge Jesus tinha sido o treinador campeão mas não servia para uma estratégia de futuro.Andou cinco jogos a louvar-se nos golos que a equipa não sofria.De repente, em cem minutos, a defesa de betão sofre oito golos.Ontem disse adeua à renovação do título por excesso de crença na «táctica».
Ora essa circunstância leva a que os critérios financeiros para a venda de jogadores já na época de Dezembro retomem a dominância nas prioridades da SAD., explorando assim a derrota desportiva à vista.O pior é que o jogo de ontem deve ter feito baixar a cotação de alguns activos mal aplicados.Só nos resta um último esforço na Liga dos Campeões.E saber sair deste poder pessoal no futebol.Ponto final.

domingo, 7 de novembro de 2010

Um autocrata ao vivo

O SLB está a perder por 3-0 .De pé, sozinho, Jorge Jesus já deve estar a pensar nas declarações que fará no final da partida.Não o vi uma só vez consultar um dos seus adjuntos, trocar uma impressão com quer quer que seja.Um autocrata, mesmo na derrota.Filho de uma certa mentalidade nacional?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O risco e o lucro

O meu artigo hoje no Correio da Manhã refere-se ao facto de nesta história do envio de «sinais» aos mercados internacionais se estar a esquecer que o problema reside nos prazos certos e montantes fixos com que o Estado procura as praças estrangeiras.Como a oferta de crédito se tornou mais escassa, a antiga lei impôe-se.Mais do que o cálculo do risco é o cálculo de um maior lucro certo que anima o mercado das dívidas soberanas.Só uma moratória geral e novo escalonamento do pagamento dessa dívidas por parte dos Estados acabará com a especulação.Além do saneamento das finanças nacionais, claro!Quando tal for agendado numa dessa instâncias conhecidas, por favor peçam aos especialistas para não dizerem que foram apanhados de surpresa...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Cooperação atómica anglo-francesa

Não me parece que o resultado das eleições nos EUA venha alterar significativamente a agenda internacional de Obama para além do que até lhe convenha.Já o acordo de defesa e de cooperação nuclear entre Paris e Londres assinala algo de verdadeiramente novo na política mundial depois das alterações do mapa geopolítico europeu subsequentes ao fim da guerra-fria.Daí talvez o silêncio sobre o assunto...

Gosto