Várias seitas judaicas disputaram o calendário samaritano ou fariseu, para dominar os respectivos grupos. Semanas de 10 dias, meses com nomes como Vindario: o calendário revolucionário francês simbolizava a queda do antigo regime e o início de outro. Os calendários organizam. Sobretudo, regem a ordem social. São um contrato. Daí que muitas guerras pelo poder correspondam a contendas de calendário. Controlando-o, controlava-se um povo.
Duas deputadas do PS querem mudar os feriados e invocam a produtividade, optando pelo modelo chinês quantitativo. Mas não qualitativo, seguido noutros países europeus com mais feriados/férias, onde se trabalha melhor menos horas. Propõem que fiquemos com seis feriados religiosos e três civis e que só estes sejam móveis evitando pontes, como se o Estado não fosse laico, o que foi reforçado pela igreja que invocou o direito a interferir. E falam do excesso de feriados, mas pretendem um novo intitulado “dia da família”.
Estas duas deputadas católicas não são Júlio César ou Gregório XIII. Também não querem mudar toda a organização cronológica. Só quatro feriados. Mas as suas propostas são pequeninas disputas da identidade colectiva. São o chamado fazer a folha. Enfim, é pegar neste calendário cor-de-rosa e virar a página.
Fiquei genuinamente satisfeito pela atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. Por ele e pela língua portuguesa.
Por ele: embora o personagem não me seja inteiramente simpático, e tenha detestado e combatido a sua passagem pela direcção do Diário de Notícias, confesso que há aspectos na vida dele que me suscitam um profundo reconhecimento. Desde logo pela sua afirmação cultural individual: José Saramago nada deve ao sistema escolar português selectivo, elitista e abundantemente estéril como a ditadura do pensamento que o ergueu.
Nem os estudos secundários os completou o Nobel da língua portuguesa. Não foi pois o sistema formal do ensino que lhe suscitou a gramática e a criatividade artística. José Saramago, Prémio Nobel, é uma obra exclusivamente sua.
Esta vitória do ribatejano, precocemente envolvido na cidade de Lisboa e na necessidade de ganhar o pão de cada dia, sobre a fatalidade de uma vida mecânica e da segregação cultural deve-se certamente a um sopro especial do seu espírito, mas sobretudo à vontade de combater a injustiça social.
Seja como for, a criatividade literária e artística de José Saramago não lhe foi facultada ou induzida pelas escolas portuguesas do tempo da ditadura. Numa terra de doutores, ele afirma-se do lado do país para quem a escola não chegou.
Leu muito, é o próprio que revela. Na entrevista publicada no jornal madrileno ABC da última sexta-feira - uma entrevista muito interessante -, José Saramago repete por ordem os seus escritores de referência: Gogol, Kafka, Montaigne, Cervantes e o padre António Vieira.
Curiosamente, afasta Fernando Pessoa dos seus monumentos, mas Vieira lá está a explicar o gosto pelo barroco que me retrai.
Percebe-se o apoio estilístico no escritor, que acede à literatura um nada antes da ave de Minerva lhe aparecer no horizonte.
Deriva dessa serôdia colheita artística outro dos motivos da minha admiração pessoal por José Saramago.
Por acaso das circuntâncias creio ter assistido ao desabrochar de Saramago como grande escritor no início dos anos 80.
Nesses anos de "refluxo revolucionário" ou de "normalização democrática", conforme as perspectivas, passávamos grande parte das nossas férias de Verão na Arrábida, na Estalagem de Santa Maria, entregues à qualidade de vida e aos cuidados de Sérgio Gama e de toda a família.
O paraíso na sua eternidade ter-se-á modelado naqueles instantes.
Na ampla esplanada, os conhecedores escolhiam os seus lugares. Recatado, José Saramago trabalhava, e só o podia fazer até à meia-noite, hora certa para Sérgio Gama mandar todos para a cama ao desligar o motor que fornecia a energia eléctrica. Mais expansiva (ou mais crente), Isabel da Nóbrega descobre-nos o segredo: o ex-director do Diário de Notícias aceitara uma encomenda do Círculo de Leitores para escrever um livro sobre as diferentes regiões de Portugal e estava então a terminá-lo. Isabel da Nóbrega afiança-nos (a mim e a Maria Emília) que o José está a amadurecer e que as letras portuguesas se irão enriquecer.
Fiquei sensibilizado. Uma mulher verdadeiramente culta é por excelência uma anunciadora. Olhei de longe para Saramago e vi um homem que queria renascer de outra maneira na república. E de facto os anos 80 vão revelar aos portugueses um escritor pujante, trabalhador e original, que há-de conseguir o primeiro Nobel da Literatura para a língua portuguesa. Contra muitos, dentro e fora do País. Saramago é um insubmisso aos poderes constituídos. Ele personifica o esforço do indivíduo para se manter livre numa sociedade adversa.
Como escrevi no início deste artigo, fiquei satisfeito por ele e pela língua portuguesa. Por ele algo mais haveria a dizer e muito será ainda dito por outros. Pela língua portuguesa que levou cem anos para alcançar este reconhecimento internacional.
Recordo as más memórias das correntes pró e contra Aquilino Ribeiro, pró e contra Miguel Torga num país ainda provinciano e desconhecedor do que o mundo pensava dele. Depois as probabilidades de um Nobel deslocaram-se para a literatura brasileira, e de novo para a nossa.
Há males que vêm por bem: o atraso na atribuição do Nobel da Literatura permitiu que este chegasse quando a língua portuguesa mais dele precisava para a sua afirmação como língua internacional.
É verdade que a língua portuguesa é falada por cerca de 200 milhões de pessoas, mas é falada para dentro desse universo, sendo a sua saliência exterior quase nula.
O Brasil é a matriz dessa atitude: a língua portuguesa é um factor de comunicação e coesão internas sem que as elites brasileiras a promovam como língua internacional. O mesmo se passa nos países africanos, embora com a particularidade de a língua portuguesa ser uma das línguas oficiais da OUA.
O Estado português acaba assim por ser o mais interessado no reforço da sua língua oficial como língua internacional, e desde logo na Europa, onde está deveras ameaçada. E é bom aproveitar estes momentos de euforia nacional para alertar os mais distraídos sobre os perigos que se avizinham nesta matéria.
É verdade que o Prémio Nobel da Paz já agraciou duas personalidades que falam português, como Ximenes Belo e Ramos-Horta. Porém, agora, o da literatura pode afirmar a nossa língua no século XXI, como João de Barros e Camões contribuíram para que ela se não perdesse entre os séculos XVI e XVII.
* Artigo de José Medeiros Ferreira, no "Diário de Notícias" de 13 de Outubro de 1998 e aqui publicado a seu pedido.
O facto mais relevante da passagem do 25º aniversário da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Europeia foi a ida a Bruxelas de uma equipa de banqueiros portugueses para sensibilizar a Comissão para os seus pontos de vista sobre as recomendações de Basileia para uma maior regulação internacional da banca, sobretudo em termos de rácios.Tudo bem.Mas o sintoma de falta de confiança na diplomacia estatal é claro.Esperemos pelos resultados.Entretanto podem ler o meu artigo no CM de sexta-feira.Nele recomendo a publicação de um livro branco sobre as negociações monetárias e financeiras em que o Banco de Portugal e os governos portugueses estiveram envolvidos em 1992 e 1998 para a entrada no sistema monetário europeu, e que retiraram competitividade à economia portuguesa.
A chamada “Legislação Laboral Especial” proposta por Passos Coelho visa alargar para três e quatro anos a duração dos contratosa prazo, que hoje vão de 18 meses a dois anos, e permitir renovações ilimitadas desta deste tipo de precariedade laboral. Claro que o PSD diz que seria temporário, até 2013, 2014 (pelos vistos acreditam mesmo que a crise terminará por aí). O “raciocínio” que subjaz a esta medida é uma completa distorção. As actuais dificuldades das empresas não se resolvem precarizando (mais ainda?) o mercado de trabalho, mas antes com incentivos ao emprego, com crescimento. Como, aliás, o passado demonstra. E propostas nesse sentido, o PSD tem zero. Adiante.
Para que os empresários não receiem “arriscar na criação de postos de trabalho”, o PSD pretende que os trabalhadores fiquem com o risco, como se a actual legislação fosse responsável pela crise e contribuindo para agravar as condições de trabalho, fragilizando e desequilibrando ainda mais as relações laborais. E como a direita portuguesa passa o tempo a criticar o Estado mas não sabe viver sem ele, género “Bem prega Frei Tomás”, o PSD quer que sejam os cofres públicos a pagar os salários devidos pelas empresas, permitindo a acumulação parcial do valor do subsídio de desemprego com o salário quando este lhe é inferior. Que liberais.
Para Cavaco Silva a prioridade sempre foi a popularidade. Por isso ignora o essencial ou insiste num discurso anti-políticos, falso (governou 10 anos) e perigoso. Mas, agora, o PR vive para escapar à crise e ser reeleito. Vejam-se as declarações do 10 de Junho.
Este outro candidato poeta e patriótico falou da identidade algarvia e do seu “abraço permanente com o mar”, revelando um desfasamento do Algarve actual, da contemporaneidade, como sucedeu com a recente exaltação do turismo doméstico. Sobretudo, contradizendo-se já que clamou pela coesão, mas destacou uma só região e apelou à “repartição dos sacrifícios”, sabendo-se que os seus executivos muito aumentaram as desigualdades e que agora apoia os PEC. Aliás, o PR referiu-se à crise como inevitável, isentando de encargos os governantes (inclusive o próprio), como se a culpa fosse de (quase) todos em geral e de ninguém em particular. E afirmou, inconsequentemente, que "chegámos a uma situação insustentável", sem avançar soluções.
Eis um inquilino de Belém que defende férias “orgulhosamente sós”, mas Algarve para pesca, que não tem nem responsabilidades nem alternativas e cuja política é imobilista e eleitoralista. Na presente situação Portugal desespera por um PR. E apenas leva com um candidato dos anos 80.
No dia mundial da criança e no centenário da República, o Ministério da 5 de Outubro anunciou um encerramento massivo de escolas (900), invocando um mínimo de 21 alunos. Este critério é o grau zero na política da educação. Nada indica que mudar 15 mil crianças para escolas maiores garante mais resultados e a hiper-escola vai contra as melhores práticas. E bom senso. Muitas crianças perderão horas diárias em deslocações para estabelecimentos a abarrotar. Talvez a Ministra depois escreva “Uma aventura... numa escola abandonada”.
Mas Sócrates tem “Ordem para fechar”. Tem acabado com maternidades, postos dos CTT, caminhos de ferro, urgências. E escolas, único local para reunião de muitas populações. Só escapa a via rápida. Se for para apascentar construtores, já se considera o interior. Enfim, Mário Lino só estava incompleto. Não é o sul que é um deserto. Em breve, o país será um castelo de areia com um oásis litoral e uma imensa estrada que leva ao nada.
É esse o Estado Socrático: o Estado dos cidadãos de primeira e de segunda, em que todos pagam impostos, mas os que vivem no interior limitam-se a poder votar; o Estado dúplice, máximo nos deveres (nomeadamente fiscais) mas mínimo nos direitos. Um Estado injusto, iletrado, inseguro. Cujo governo deveria ser rapidamente encerrado.
Aviso todos os interessados, e mesmo os menos interessados, de que estou a enviar, directamente da África do Sul, uma crónica diária para o Correio da Manhã sobre o Mundial de futebol.Título da rubrica: Pontapé de Canto.Mais informações nos Bichos-Carpinteiros.
É um acaso.Estou na África do Sul para acompanhar o Mundial de Futebol ( imagino o estupor que tal coisa pode causar no João Gonçalves!), e escrevo hoje no Correio da Manhã sobre o périplo não-europeu do primeiro-ministro â Venezuela, ao Brasil e a Marrocos.A U.E.começa a exigir mais do que dá.Há que ir buscar fora. Nota: detesto os dogmáticos europeístas portugueses, filhos dilectos da mentalidade acrítica dos africanistas seus pais.
O ano passado ainda tivemos o discurso autêntico do António Barreto.Este ano nem isso.Pompa e ainda maior circunstância.Os sinais políticos do Dia não vieram dos discursos.
O meu artigo de hoje no Correio da Manhã entra em diálogo com Mário Soares sobre que« erros graves», o PS tem cometido ultimamente, e sobre o facto de eu acentuar erros distintos dos apontados pelo insubstituivel fundador do PS.
O anúncio do fecho de cerca de 500 escolas pelo país fora pode animar as perspectivas de redução da despesa mas é uma má notícia para a educação e para a coesão territorial e social.Sobretudo o critério do número de alunos parece-me escasso para tomar uma decisão dessas. Esse dado deve ser combinado com outros, como a distância e o tempo que as crianças vão ser obrigadas a percorrer para receberem a instrução noutra escola e noutro lugar.Embora a responsabilização dos municípios seja indispensável para a manutenção de um máximo possível de estabelecimentos de ensino abertos.Confio na recta intenção da ministra Isabel Alçada.
O tema é recorrente: de vez em quando fala-se dos portugueses convidados para participarem nas reuniões do Clube de Bilderberg. Durante muitos anos os jornais não referiam o meu nome e não vinha mal ao mundo por isso.Mas desde que alguém consultou a lista, que é pública, lá me telefonam para confirmar. Ontem foi o jornal I.Acontece que fui, de facto, convidado duas vezes, em 1977 quando era Ministro dos Negócios Estrangeiros, e , em 1980, quando já o não era.Nessa última vez, alguém do Steering Committee, perguntou-me que nomes eu sugeriria, de outras correntes políticas em Portugal,para futuras reuniões.Lembrei-me de Francisco Balsemão, entre outros, como se escreve na imprensa.Não sei se foi por isso, se por mera coincidência, o certo é que o futuro primeiro-ministro acabou por ser o grande cooptador dos portugueses que participam nas reuniões daquele pacífico clube.Tenho a impressão de que leva poucas negas...
Manuel Alegre esteve bem na primeira fase da entrevista dada a Judite de Sousa, que não foi particularmente acutilante.Pareceu-me sereno, como se tivesse atingido um objectivo íntimo.Depois cansou-se das perguntas e tratou Cavaco Silva como um colega de infortúnio.Mas vai ter de explicar melhor qual será o seu contributo para mudar a situação de Portugal.
Israel está a empurrar a poderosaTurquia militar, membro da Nato, para o campo dos seus inimigos na região.Mais do que um crime é um erro, como se diz.
Os políticos alemães não são como os portugueses.Se é necessária uma crise política para ultrapassar um impasse eles vão em frente.Não se agarram à fragilidade.O Presidente da República Federal , Kohler, teve várias atitudes polémicas no respeitante à guerra no Afeganistão.Demitiu-se.Os «europeus» como nós não conseguem compreender.Mas a crise na Alemanha é de carácter internacional.Vai continuar até Ângela Merckel mudar de coligação, pelo menos.
No sábado não fiquei com uma imagem muito clara do tamanho da manifestação promovida pela CGTP em Lisboa, e até me pareceu que ela tinha ficado um pouco aquém das expectativas dos seus organizadores.Mas hoje já ouvi tantas vezes citada essa manifestação no programa Prós e Contras que concluo que a sua importância política se revelou maior do que o tamanho.
O Córtex Frontal desempenha funções mentais complexas geralmente designadas de cognição, desde processos de tomada de decisão até memória de longo prazo. Está associado ao raciocínio, planeamento, discurso, movimento, emoções e resolução de problemas.